Juca de Oliveira: “Estou só no começo!”

Aos 82 anos, mas com pique de adolescente, o astro se divide entre O Outro Lado do Paraíso e suas peças de teatro

Por Daniel Vilela

Juca de Oliveira | <i>Crédito: Fabrizia Granatieri
Juca de Oliveira | Crédito: Fabrizia Granatieri

Fica até difícil torcer o nariz para Natanael, um dos vilões barra-pesada de O Outro Lado do Paraíso, e depois bater um papo com Juca de Oliveira. Boa-praça, o grande ator faz malabarismos para defender o advogado capaz de armar para a própria nora, Elizabeth (Gloria Pires), sumir do mapa por não achá-la à altura de seu filho, Henrique (Emilio de Melo). “Tudo o que ele faz é por amor”, justifica o artista.

Não é neste amor, no entanto, que Juca acredita. Ao lado da esposa, a musicista Maria Luisa de Faro, conta que nunca se meteu na vida da única filha, a produtora teatral Isabela, de 37 anos.  “Sempre fomos um apoio para ela, que tomou as suas próprias decisões”, pondera o intérprete, que, nos próximos capítulos, verá Natanael pagar caro por interferir tão drasticamente na vida de Henrique e da pobre Duda, a quem, inclusive, encomendou o assassinato. “Mas quem vai saber contar mais é o autor da novela, Walcyr Carrasco”, despista, aos risos.

Aos 82 anos e uma sede de vida incrível, Juca se divide entre as gravações do folhetim e peças de teatro. Além de ator, produtor e diretor, ele escreve espetáculos, alguns deles sucessos como Qualquer Gato Vira-Lata Tem a Vida Sexual Mais Sadia Que a Nossa (1990), Caixa Dois (1997) e Às Favas com os Escrúpulos (2007).

“Todas foram excepcionais sucessos porque as musas do teatro me ajudaram, estão sempre aqui conosco. Às vezes, acredito que elas as escreveram por mim”, revela o modesto Juca, que sempre usou o bom humor para fazer críticas políticas em seus textos.

Agora, envolvido com mais um desses belos textos, conta: está tão decepcionado com o momento atual do país, envolto em escândalos de corrupção, que pena no sentido de arranjar um protagonista para sua mais nova empreitada teatral. “Como encontrar um mocinho em meio a tantos vilões?”, questiona ele.

TITITI – Dizem que para um ator é fácil defender um personagem. Como sairia em defesa do Natanael?

Juca de Oliveira – Ora, defendo apenas uma vida excepcionalmente boa para o personagem no caso. Há horas em que ele toma a frente (risos). Há mal em querer que meu filho Henrique avance profissionalmente, seja um embaixador maravilhoso, e continue ao meu lado, ganhando rios de dinheiro, mesmo se for preciso, eventualmente, trocar de nora (gargalhadas)?

Então vai dizer que ele não é um vilão?

O que o leva a tomar certas atitudes é o grande amor que  tem pelo Henrique, a ansiedade de vê-lo progredir profissionalmente e intelectualmente. E, claro, ele tinha uma nora, a Elizabeth, que nem sempre correspondia às expectativas dele. Qual pai não tem essa paixão especial pelo filho, não quer vê-lo feliz, pelo menos, no que acredita ser a felicidade?

A exemplo do Natanael, em algum momento acreditou que alguém próximo seria mais feliz ao lado de outra pessoa?

Ah, nisso somos completamente diferentes. A partir daqui, já é o Juca, viu (risos)? Para mim, nenhum pai tem direito de interferir dessa forma na vida de um filho. Cada um escolhe ser feliz como quiser. Às vezes, as pessoas se casam e, em certo momento, se apaixonam por outras. É normal. Deve-se compreender. Não dá para se opor ao amor. Ninguém consegue conter a eclosão de uma paixão.

Crê na lei do retorno, mote da novela das 9?

Concordo absolutamente com o (ditado): aquilo que se faz aqui, aqui também se paga. Acho que devemos ser afetivos, solidários e generosos, sempre. Se não, é ótimo que soframos as consequências.

Como tem sido reencontrar nos bastidores grandes atores de sua geração?

Não se trata de um reencontro, porque estamos juntos sempre. Trabalhei com Nathalia Timberg em uma das primeiras peças que fiz. O Lima Duarte é um amigo excepcional, já fiz teatro com ele, continuo na expectativa de retomarmos essa rotina. Cá para nós, somos quase como uma quadrilha (risos). Nós, atores, somos uma família que se quer muito bem, se ajuda e se solidariza. Sempre.

Especialmente vocês, mais experientes, que sofreram preconceito no passado por seguir essa profissão...

Desde sempre, pelos séculos, nos expulsaram e nos colocaram em uma encruzilhada junto de batedores de carteira, prostitutas e homossexuais, todos também marginalizados. Ainda hoje nos atribuem esse caráter de marginais de vez em quando. Ah, mas o ator não liga, porque é generoso. Estamos aqui para tornar as pessoas mais generosas, afetivas e, sobretudo, solidárias. Essa é a função do ator, que exercemos apaixonadamente.

Pensa em deixar a telinha?

Imagina! Estou só no começo (risos)! Talvez trabalhe muito mais hoje do que quando tinha 20 anos. 

A maturidade o ajudou a ter mais êxito na profissão?

Claro que a idade ajuda. Você soma experiências, se torna mais sensível às coisas... Por exemplo, só conheci uma sociedade em que todo o governo é corrupto agora. Nunca houve uma situação em que praticamente não houvesse uma oposição política correta. Hoje, são todos corruptos. Eu, como escritor, estou tentando resolver esta equação. Como fazer uma peça em que todos os lados são vilões?  

E acha que será capaz de escrever este espetáculo, como está pretendendo, em que já não há mais mocinho na política para servir de inspiração?

Deve sempre existir o protagonista e o antagonista. O bom e o mau. Quando se desencadeia uma situação, existe um outro que se opõe. Mas, se todos são corruptos, quem é que vai se opor? Falta o conflito, que é fundamental. Se todos são iguais, não existe a contravontade. Vou ter de quebrar a cabeça.

11/01/2018 - 17:05

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