Marieta Severo: “Sophia é um retrato da nossa época”

A atriz analisa as maldades de sua vilã em O Outro Lado do Paraíso e pergunta: quem aí não conhece alguém que só dá valor ao poder do dinheiro, hein?!

Por Daniel Vilela

A atriz Marieta Severo | <i>Crédito: Fabrizia Granatieri
A atriz Marieta Severo | Crédito: Fabrizia Granatieri

Nem mesmo os 14 anos como dona Nenê, em A Grande Família, de 2001 a 2014, foram capazes de aliviar a barra de Marieta Severo junto ao público. Não é para menos... São tantas as maldades de Sophia, em O Outro Lado do Paraíso, que já tem quem dê uma torcida de nariz para a grande intérprete nas ruas. “Tudo bem, a gente sabe que ela não é nenhuma fofinha, não é?”, diz brincando a estrela, que ainda faz questão de colocar a mau-caráter em seu devido lugar! “Não tenho nada a ver com ela, viu?”

E põe diferença nisso! Discreta, e com uma vida bem simples e regrada, Marieta não se deixa seduzir pelo brilho das esmeraldas, que, mais hora ou menos hora, ainda vão levar Sophia e sua trupe do mal à perdição. “Ela acha que o dinheiro é o valor absoluto na vida”, analisa a estrela, que vê sua grande riqueza na felicidade e no bem-estar das três filhas, Sílvia Buarque, Luísa Buarque e Helena Buarque, e dos sete netos.

Aliás, este é outro ponto que distancia intérprete de personagem. Afinal, como mesmo brinca, de Severo é só o sobrenome. Se Marieta tem uma verdadeira paixão pelas herdeiras, frutos do antigo casamento, de mais de 30 anos, com o cantor e compositor Chico Buarque –, não dá para dizer o mesmo da relação entre Sophia e a rejeitada Estela (Juliana Caldas).

“As palavras ditas por ela são tão duras que chorei por bastante tempo depois”, revela a diva, ao relembrar momentos em que a jararaca chamou a filha, que tem nanismo, de “monstrengo”.

Desde 1966 na telinha, quando estrelou O Sheik de Agadir, Marieta garante não ter mudado muito. “Tem umas calças de 30 anos que ainda cabem em mim”, conta, aos risos, ela que se recusa a fazer plástica. “Tenho horror. Não posso perder expressão. A testa tem de se mover”, refuta ela, atualmente casada com o diretor Aderbal Freire-Filho.

 

TITITI – Como foi voltar a uma novela das 9 depois de 17 anos? A mais recente foi Laços de Família (2000), na qual também viveu uma baita mau-caráter, a Alma.

Marieta Severo – Sempre fico com saudade de trabalhar, independentemente do horário. Posso estar em qualquer um deles que estou feliz. Claro, existe uma expectativa tremenda em torno desse “horário nobre”, porque é o que tem mais gente em casa assistindo. Mas, ainda bem, sempre tive e tenho cada vez mais a capacidade de trabalhar fora dessas expectativas. Elas estão por aí, mas não em mim (risos)!

Então não bateu nenhuma insegurança?

Sempre quero fazer o meu trabalho da melhor maneira possível. Mas, claro, um personagem sempre mexe com as suas inseguranças. A gente fica remoendo se vai dar certo ou não, se é um bom caminho. A vida é assim mesmo, criar é um processo que nos deixa inquietos. Normal...

É sua segunda vilã seguida, já que a Fanny, de Verdades Secretas (2015), também de Walcyr Carrasco, não era coisa boa...

Sim, mas ela perto da Sophia é coisa pequena. Claro, Fanny mexia com prostituição, mesmo que no fundo ajudasse aquelas meninas a ganhar dinheiro, comprar apartamento... A maldade dela tinha um limite. A Sophia me parece  sem limites, para chegar aonde quer não vê problema no caminho. Nada a detém.

Há algo de bom na Sophia?

Ela ama os filhos, claro, do jeito dela. Vive em função dessa família, que usa como pretexto para colocar as mãos nas esmeraldas. Ela sempre quis manter as aparências, os valores, então acha mesmo que está agindo para o bem deles. 

A Juliana Caldas, que faz sua filha com nanismo na trama, disse que foi duro para vocês lidarem com as falas preconceituosas da Sophia...

A preparação foi muito difícil, porque a personagem ainda não estava lá, me servindo de escudo. Agora, com mais intimidade que se vai criando, dá para falar barbaridades, combinar, “vamos dizer assim, numa boa”. Ao fim das cenas, a gente se abraça, dá um beijo e tudo certo. Até porque eu, Marieta, não tenho nada a ver com ela, né?

Sim, vocês são distintas! Mas, infelizmente, há muitas delas perdidas por aí, não é?

Sophia é um retrato da nossa época. Muito moderna, de uma atualidade extrema. O grande valor da vida dela é o poder do dinheiro. E, para ter dinheiro, ela faz qualquer coisa. Para ela, é o valor mais absoluto na vida. Reconhece isso em alguém? Acho que já, né? Não tem nada mais assustador que a realidade hoje em dia.

E as pessoas ainda reclamam que a trama é pesada...

A ficção não consegue chegar aos pés da realidade, que está avassaladora. As coisas que o ser humano vem sendo capaz de fazer, meu Deus! Achei a vida inteira que a gente caminhava para o progresso, a luz, abrir cada vez mais o horizonte. Está acontecendo o oposto.

Está sem esperança?

Não quero perdê-la. As coisas são cíclicas, se refazem. Mas não queria estar vivendo este momento agora, em que a gente anda para trás. Um pessoal jovem, cheio de preconceito, de caretice! Uma palavra que era da minha época, mas parece que voltou com tudo. Como é que pode um jovem de 22 anos, por exemplo, ser tão careta assim?! Eu, nessa idade, queria romper barreiras, experimentar coisas novas! Agora querem só o que é ultrapassado. Acho que com 50 anos eles vão estar doidões (risos).

Você chegou a se opor às recentes manifestações pelo fechamento de exposições (especificamente a Queermuseu, em Porto Alegre). Teme que a censura esteja de volta?

É horrível viver com censura, não vamos nem brincar com isso, pelo amor de Deus. É muito grave e sério. Vivi isso na ditadura militar. Absolutamente horrível o espaço que essas pessoas retrógradas, caretas, de mente fechada, tiveram para fechar uma exposição. O que é isso? Revoltante. Isso não pode existir. Se não gosta, não vá. É igual televisão: não gostou, muda de canal, malandro! Vai ver outra coisa!

Esse é o outro lado do seu paraíso?

Juro por Deus, isso está sendo o meu inferno, pensar que o meu país está andando para trás. Para mim, é um motivo de tristeza, medo e pânico. Chega, daqui a pouco vou começar chorar!

Crê que a gente possa mudar o jogo ano que vem com as eleições?

Tenho 70 anos e nunca imaginei que fosse viver um momento político tão triste e desastroso na política brasileira como o atual. Não imaginei que a gente pudesse ter, de novo, situações ditatoriais, que é o que estamos vivendo. São ameaças de retrocesso desastrosos. Antes de pensar em 2018, eu adoraria ter, agora, alguma luz. Sentir que existe um espírito público em nossas instituições. Adoraria que algum deles pensasse em nós e não em causa própria.

Costuma assistir televisão?

Acompanhei A Força do Querer quase toda. Adoro a Gloria Perez, tenho particular carinho e admiração por ela.

O que mais gostou da trama?

A questão da transexualidade me comoveu muito, especialmente a maneira como a Gloria colocou o público dentro das emoções do Ivan (Carol Duarte). Foi importante ela não ter abordado o tema pelo lado mais racional, e sim pela parte humana – a fim de escapar desse momento careta, de fechamento. Lindo!

O Outro Lado parece que vai acompanhar o sucesso de A Força. A audiência é algo que preocupou vocês?

Um sucesso e um fracasso não se medem pela audiência. Há novelas fantásticas, de alta qualidade artística, que não caíram no gosto do público. Sempre foi uma responsabilidade substituir a trama da Gloria Perez. Mas me preocupo, mesmo, é com o meu trabalho. Faço por onde no sentido de honrar isso tudo. Se no fim vai dar certo ou errado, é outra história! 

11/01/2018 - 17:20

Receba as novidades da Tititi em seu e-mail! Cadastre-se abaixo:

*preenchimento obrigatório

Conecte-se

Revista Tititi