Carol Duarte: 'Meus pais sempre me apoiaram, até mesmo quando eu pensei em desistir da carreira de atriz'

A grata revelação de 'A Força do Querer' revela as dificuldades pelas quais passou até chegar ao atual sucesso com a importante personagem transexual Ivana

Carol Duarte com Maria Fernanda Cândido: filha e mãe em conflito em 'A Força do Querer' | <i>Crédito: João Miguel Júnior/TV Globo
Carol Duarte com Maria Fernanda Cândido: filha e mãe em conflito em 'A Força do Querer' | Crédito: João Miguel Júnior/TV Globo
Quem a vê brilhando na pele da transex Ivana, da novela global das 9, não imagina o quanto a atriz Carol Duarte batalhou para chegar à posição de destaque com apenas 26 anos. Desde os 15 ela estuda artes cênicas e luta pelo lugar ao sol. E admite, pouco antes de A Força do Querer, quase desistiu da carreira artística por conta das dificuldades que a classe enfrenta, sobretudo fora da televisão, grande vitrine. 

“Viver de teatro é muito difícil no Brasil. Eu estava começando a ter necessidades na vida e que ele não vinha me dando. Comecei, então, a trabalhar de garçonete e fiz outras coisas para ganhar dinheiro e poder seguir como atriz, fazendo o que amo”, revela a estreante na telinha. Mesmo diante dos obstáculos, o apoio dos pais manteve a artista de cabeça erguida. “Meus pais sempre me apoiaram, até mesmo quando eu pensei em desistir da carreira de atriz”. A grata revelação de A Força do Querer revela as dificuldades pelas quais passou até chegar ao atual sucesso com a importante personagem transexual Ivana ganhar a atual visibilidade em todo o Brasil. E olha que Carol carrega uma tremenda responsabilidade: representar, via personagem, uma minoria que tanto sofre por preconceito e até violência, que são os transexuais, travestis, gays, lésbicas, bissexuais, por exemplo. Para quem não sabe, na trama, Ivana nasceu com corpo de mulher e foi criada pela mãe, Joyce (Maria Fernanda Cândido) para ser uma princesinha. Quase uma peruinha... Porém, ao se olhar no espelho, a jovem não se enxerga como tal. Sua cabeça, seus sentimentos, são de um garoto que se vê apaixonado por Cláudio (Gabriel Stauffer).

 A autora Gloria Perez sabe como é importante a abordagem do assunto. Especialmente a transfobia, tema de fundamental importância, já que o Brasil é o país que mais mata pessoas com estas condições sexuais. Diante disso, Carol se sente porta-voz do público LGBT, que precisa ter seus direitos respeitados, se sentir seguro e representado. E que lugar melhor para se começar esse debate do que no próprio lar, com a família, prevenindo e combatendo a discriminação? “Depois da novela, algumas pessoas me disseram que estão vivendo esse conflito (como o de Ivana) e começando a se entender... Falam que dentro de casa vem sendo difícil, os parentes têm assistido à trama e isso vem ajudando, o que me deixa muito feliz! Espero que Ivana possa contribuir para que essas pessoas, de alguma forma, tomem coragem, entendam seu caminho, se assumam e sejam felizes! Me sinto contente e honrada em estar fazendo esse papel na sociedade.”

TITITI – Como tem recebido a resposta do público com relação à personagem? 
Carol Duarte – Caramba, está sendo muito legal! Como só havia feito teatro, vejo um público de novela muito grande e as pessoas são bastante carinhosas comigo. Estou muito contente com o resultado.

TITITI – Ivana enfrenta um momento sofrido de autoconhecimento. Vai demorar para ocorrerem as transformações físicas nela (a personagem deverá adotar roupas masculinas etc)? 
Não sei, isso está nas mãos da Gloria, né? O que posso dizer é: as cenas da Ivana requerem muita concentração, pois são difíceis... Estou mergulhada em estudar, aprendendo bastante, graças à estrutura da casa e aos parceiros de cena, que me ajudam demais. Está sendo uma experiência bem bacana.

TITITI – Está pronta para mudar seu visual no que for necessário? 
Sim! Independentemente do caminho que a Gloria seguir, estou pronta para esse momento, certamente! Mas ainda não sei nada quanto a isso.

TITITI – Pelo jeito é vaidosa, tem um cabelo lindo... E tudo leva a crer que terá de cortá-lo quando Ivana assumir o gênero masculino. Tudo ok? 
Se isso acontecer, acho que vou gostar. Adoro meu cabelo, mas gosto dessas mudanças.

TITITI – Você já teve cabelo curto? 
Nunca! Mas sei lá, cabelo cresce, né (gargalhadas)?!

TITITI – Falando em Gloria, aliás, ela tem elogiado bastante seu desempenho... 
Gente, fiquei muito feliz (quando soube)! Respeito muito o trabalho dela e a acho corajosa em suas tramas (por conta dos temas abordados). Fiquei radiante com o reconhecimento dela.

TITITI – Teve alguma sequência sua até aqui que achou mais forte, mais marcante? 
Aquela do espelho, em que Ivana se observa e não se reconhece, de fato me marcou. Ela materializou esse conflito com o próprio corpo.

TITITI – Conhece alguém que esteja passando por essa transição? Foi uma fonte de inspiração? 
Conheço... Aliás, conversei com várias pessoas que estão passando por isso em diferentes fases da transição e com faixas etárias distintas. Acho que cada história que ouvi está ali, no meu trabalho. De alguma forma essas pessoas estão no sofrimento da Ivana.

TITITI – Qual é o maior desafio de interpretar o papel? 
A grande dificuldade é a seguinte: Ivana sente que o feminino não está nela, que não tem a ver com ela. Meu maior desafio é andar juntamente com a personagem nessa busca. E o público vai descobrir junto comigo, com ela. É uma esquizofrenia louca do ator, né (risos)?! Mas é isso.

TITITI – Antes de a novela estrear, falava-se em uma eventual rejeição da personagem. Só que não e ainda reprovam as atitudes da mãe dela. Esperava essa imensa aceitação popular? 
Fico muito feliz com isso, sabia? Acho que a Ivana é um ser humano que está buscando se achar, se encontrar, independentemente de padrões. Me sinto feliz vendo as pessoas apoiarem isso. De alguma forma, estamos apoiando uma pessoa que quer simplesmente ser, não importando o que é. Isso é legal!

TITITI – Apesar dessa aceitação, bateu um medo inicial? 
Eu não pensava em possibilidade de rejeição. Estava focada em fazer a Ivana da forma que estava ali, do jeito que eu, Gloria e o Papinha (o diretor Rogério Gomes) conversamos.

TITITI – Pois é... A Ivana não é o que Joyce gostaria que fosse. E você? É o que sua mãe idealizou? 
Certamente não (risos)! Minha mãe (Marivete) é superorgulhosa de mim, coruja... Mas, com certeza, tinha projeções que não realizei. Aliás, nunca tive essa conversa com minha mãe. Vou ligar para ela depois dessa entrevista (gargalhadas).

TITITI – Às vezes, os pais têm receio quando os filhos resolvem seguir trajetória artística, por ela ser supostamente mais instável. Essa foi uma questão entre você e sua família? 
Quando decidi ser atriz, a gente conversou muito sobre isso. Como não tem ninguém na família ligada à arte, havia essa preocupação, sim. Meus pais, claro, queriam que eu vivesse bem, estivesse feliz. Porém, independentemente de tudo, sempre me apoiaram. Até em um momento que pensei em desistir da carreira. Eles disseram: “Tudo bem, vê se é isso mesmo. Mas não pare por falta de grana”. Eles sempre me incentivaram em tudo.

TITITI – Antes da chegada de A Força, você comentou que seus pais estavam numa ansiedade danada. E hoje, com o sucesso? 
Gente, eles choraram horrores no início! Contavam para todo mundo, até para a moça da farmácia, sempre emocionados. A minha mãe é dentista e trabalha perto de uma banca de jornais. Meu pai se chama Romeu e é marceneiro. Quando chegam as revistas de vocês, os dois compram tudo (risos)!

TITITI – Ambicionava fazer TV? 
Quando iniciei no teatro, me apaixonei. De fato, continuo apaixonada por ele. Mas acho: todo ator brasileiro sabe que a possibilidade de fazer novela existe. E sempre achei que seria muito legal, sim, e estou aprendendo de fato.

TITITI – O que rolou para fazer repensar a carreira antes da trama? 
Foi uma questão simples: o dinheiro que vinha do teatro nem sempre supria minhas necessidades. É uma certa frustração, sabe? Cheguei a ter que trancar a escola de artes dramáticas, revi coisas na vida.

TITITI – Então... Você foi descoberta nos palcos, está na TV, em horário nobre. Qual o maior ponto de atenção? 
O teatro tem um tempo totalmente diferente. Quando se pega uma peça, a gente tem um tempo para se dedicar a ela, que é uma obra fechada. O tempo da TV é muito rápido, tanto de gravação quanto de estudo. Às vezes, gravo uma cena que, eventualmente, achei que não foi tão boa, mas isso não interessa! Na próxima, eu tenho que estar lá e tentar fazer benfeito novamente. Tem um ritmo diferente e é nisso que mais sinto dificuldade.

TITITI – Com o êxito na telinha, fatalmente, ocorre uma maior exposição, o interesse de fotógrafos por flagras... Já sabe como lidar com esses lances inevitáveis? 
Acho que sim... Sou tranquila com isso. Na verdade, não estou preocupada com essas coisas.

TITITI – Quanto a essa triste questão da matança de homossexuais, mulheres, negros e moradores de rua, por exemplo, por preconceito... Acha que o ser humano é um caso perdido? 
Se eu achasse isso não estaria trabalhando como atriz. E espero que a novela possa abrir os horizontes das pessoas e tirar o preconceito. Esse tipo de violência, de se chegar e matar, isso tem que acabar. Creio que a novela é mais uma faísca para a gente falar sobre isso. Ainda temos que conquistar muita coisa enquanto sociedade para que isso não ocorra mais. Muitas vezes, o preconceito rola por falta de informação. Todas as vezes que eu entro no estúdio para fazer a Ivana, minha torcida é para que isso acabe.

TITITI –  Crê que a Ivana e a Joyce poderão se acertar em algum momento? 
Torço para que sim! E torço pela transformação das duas personagens. Mães como Joyce existem e têm dificuldade para entender o que o filho está vivendo. Quero muito que, apesar das diferenças, ambas possam conviver bem. Isso é possível, sim.

TITITI – Não sabemos como ficará a questão amorosa da Ivana. Se, no final, assumirá o Cláudio ou amará uma menina. Está pronta para beijar outra mulher em cena se for o caso? 
Eu não sei se isso vai realmente acontecer (do envolvimento com uma menina). Mas, claro, como atriz estou disposta a tudo. Mas acho que a Ivana é, realmente, apaixonada pelo Cláudio, que gostaria de ficar com ele. Porém, as questões dela com relação ao corpo são anteriores a ele. 

TITITI –Como está sendo residir no Rio, já que é de São Paulo? 
Minha vida está sendo aqui no Projac (risos)! Estou trabalhando bastante... Às vezes, quando tenho folga, vou pra Sampa ficar com minha família. Mas estou amando o pouquinho que vivo do Rio. A cidade é linda! 

TITITI – Acredita que a Ivana vai mudar a sua vida? 
A importância dela estará comigo para sempre. E minha vontade é continuar trabalhando, fazendo milhares de outras coisas. Como atriz, essa é mais uma personagem na carreira. Eu não tenho medo do que está por vir. Quero é mais!

16/06/2017 - 06:59

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