Ana Flavia Cavalcanti: 'Não sofra racismo calado: reaja e denuncie'

Após um longo ano na pele da diretora de um colégio estadual paulistano, a atriz vê na valorização da educação pública e em políticas de afirmação uma forma de amenizar parte dos horrores causados por 388 anos de escravidão no Brasil

Ana Flavia Cavalcanti | <i>Crédito: Divulgação/Vira Comunicação
Ana Flavia Cavalcanti | Crédito: Divulgação/Vira Comunicação

Assim que desmontarem pela última vez os cenários de Malhação – Viva a Diferença, que chega ao fim na próxima segunda-feira, 5 de março, Ana Flavia Cavalcanti poderá dizer adeus à professora Doris com a sensação de dever cumprido.

“Vivi um belo ano de trabalho, me dediquei demais e o reconhecimento veio na medida dessa lindeza que é a Doris”, revela a atriz, em entrevista à TITITI.

Em um trabalho gratificante, em que a estrela pode sair em defesa da escola pública e ainda discutir, em horário nobre, temas tão necessários como o racismo e a homofobia, uma das histórias que cruzaram o pátio e os corredores do Cora Coralina – fictício colégio estadual da Vila Mariana, em São Paulo –, fez Ana Flavia reencontrar um pedacinho do seu passado.

Assim como Ellen (Heslaine Vieira), e tantos brasileiros, precisou batalhar por uma chance de seguir com os estudos, Ana Flavia também lutou para poder seguir estudando.

“Solicitei uma bolsa no Senac de Santo Amaro para o curso técnico de enfermagem, no início dos anos 2000. Chegou em boa hora e eu pude ampliar meus conhecimentos. Acabei não seguindo a carreira de enfermeira, pois sempre quis ser atriz e batalhei muito por isso também”, pondera.

Para Ana Flavia, o país só se alçará voos mais altos quando todas as crianças receberem uma ótima educação pública. “Gostaria ainda de colocar a importância do sistema de cotas para negros e pessoas de baixa renda, o FIES, o ProUnid, todas políticas que reparam em alguma medida o estrago que foi termos vivido 388 anos de escravidão em nosso país”, arremata ela, no nosso bate-papo.

TITITI – É especial poder viver uma professora, que saiu em defesa da escola pública, em uma das temporadas mais bem sucedidas de Malhação?
Ana Flavia Cavalcanti – Muito. Tive a oportunidade de dividir minhas ideologias com essa personagem. O Cao Hamburger e sua equipe de roteiristas foram cirúrgicos na abordagem desse tema tão pertinente e urgente que é a educação pública de qualidade. E isso chegou em outras áreas da Globo. Só tenho a agradecer.

Algum professor foi tão marcante em sua vida quanto a Doris para os seus alunos?
Gostava muito do professor Ronaldo de Matemática. Foi especial na minha formação. Muito íntegro, divertido, sabia tudo dos números e se colocava muito bem em sala de aula.

Assim como sua personagem, tem vontade de ter filhos?
Sim, mas por enquanto quero viver outras experiências profissionais e daí sim parar um pouco para ser mãe, seja gerando um filho ou adotando uma dessas milhares de crianças abandonadas em orfanatos.

A temporada abordou com muita sensibilidade o preconceito, incluindo o racismo...
Racismo é crime previsto em lei com pena que vai de 3 a 5 anos de cadeia. O tema precisa ser debatido diariamente até que a transformação aconteça. Se você que está lendo essa entrevista sofrer racismo, diga calmamente a seu agressor que você percebeu o racismo dele e que isso é crime e ele pode ser preso por isso. Em seguida, se dirija a uma delegacia para prestar queixa. Não sofra racismo calado. Reaja e denuncie!

Sempre quis ser atriz? A família a apoiou?
Minha família me apoiou em tudo. Somos muito ligados e nos amamos demais. Estou em um avião respondendo a entrevista e achei curioso porque, quando pequena, queria ser aeromoça. Depois, passei um período sem saber direito e por fim conheci o Indac, a escola de teatro que fiz, e me apaixonei por tudo ali. O teatro me tomou.

Beleza você tem de sobra. É vaidosa?
Obrigada pelo elogio! Não sou vaidosa, não. Me acho bem linda de fato, mas é uma coisa de dentro, não sei explicar direito. Desde pequena, me achava diferente, especial, mas essa autoestima vem da educação que recebi da minha mãe. Ela conseguiu , mesmo nos momentos mais difíceis, nos passar valores sólidos e nos dizer que éramos merecedores e potentes de tudo o que almejássemos, que era preciso estudar, saber entrar e sair dos lugares com respeito e sendo respeitado.

É de perder horas se arrumando?
Quando estou a fim de lacrar, me arrumo bem linda, solto bem meus cabelos que amo tanto e realmente uma coisa acontece. Mas também posso sair de camiseta preta também sem nenhuma produção. Beleza é o bem estar, a alegria que vem de dentro, é o carinho da família, são as nossas boas lembranças, a comida preferida, sair com os amigos, rir muito, falar besteira... e sempre dá pra caprichar no rimel, né (risos)?

Agora que Malhação chegou ao fim, quais os planos a seguir?
Vou fazer uma participação na série Sob Pressão e logo mais, em maio, vou dirigir Rã, um filme que escrevi e também atuo. Quero seguir com minhas performances a Babá Quer Passear e Serviçal, onde discuto a condição do empregado doméstico no Brasil. E que bons ventos continuem chegando!

27/02/2018 - 17:00

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