Betty Faria: “Sou sobrevivente de ventos, tempestades e muita trovoada!”

Aos 75 anos e dona de personagens memoráveis em dezenas de novelas e filmes, a grande estrela conta que a única batalha que perdeu na vida foi contra o tempo

Daniel Vilela

Betty Faria entrará em A Força do Querer como Elvira | <i>Crédito: Globo / Estevam Avellar
Betty Faria entrará em A Força do Querer como Elvira | Crédito: Globo / Estevam Avellar
Em todas as vezes que a vida chamou Betty Faria para dançar, a atriz se fartou até o sapato pedir para parar. Aos 75 anos e rebelde por natureza, a diva ainda dá um baile. Mesmo que seus joelhos, muito usados no início da carreira como bailarina de programas de TV e vedete nos shows de Carlos Machado, já não sejam lá mais os mesmos. “Envelhecer é chato. O corpo dá problema, enche o saco! 
E não é só coisa da vaidade, viu? Se prepara que a gente adoece também”, adverte a artista, que há anos luta contra a artrite reumatoide e entrará em breve em A Força do Querer na pele de Elvira, antigo amor de Garcia (Othon Bastos). 

Por conta das fortes dores causadas pela doença, Betty chegou a se viciar em corticoides (medicamento anti-inflamatório) para dar conta dos trabalhos na TV e no teatro. “Sou uma sobrevivente”, afirma ela, que só perde o gingado quando o assunto é preconceito. “A idade me trouxe liberdade para falar sobre tudo”, dispara ela, conhecida por ser ferrenha defensora da descriminalização da maconha e do empoderamento feminino. “A mulher ainda é muito discriminada, mas a gente não pode deixar que isso aconteça!”, afirma a intérprete, que diz nunca ter abaixado a cabeça diante da hipocrisia.

Betty, diga-se de passagem, jamais se deixou abalar diante das eventuais críticas, inclusive, quanto aos seus relacionamentos com homens mais novos. 

A eterna musa também não se priva de a ir à praia de biquíni.  Nem deveria, né, gente? Mas não nega: só deu o braço a torcer ao tempo. 
“Me permiti ficar velhinha. Não dá mais para ser aquela Tieta com a bunda lá em cima”, comenta, referindo-se à protagonista que enfeitiçou meio mundo na novela exibida em 1989.

TITITI – Cadê você que ainda não apareceu em A Força do Querer? 
Betty Faria – Eu entro mais para o meio, calma (risos)! Sou a mais velhinha do elenco. Deixa os jovens brilharem. Mas vamos falar da Elvira... Ela foi uma antiga paixão do Garcia, mas não se casaram. Vamos ver o que acontece.

É difícil para veteranos se manterem na televisão?
Então, tem um papel aqui, outro ali. Se não, a gente fica fazendo só participação especial. Ainda bem que alguns autores pensam nos velhinhos. 

A idade, de fato, pesa?
Envelhecer é difícil, tem que transar demais a cabeça para ficar bem, feliz. Melhor idade o caramba, não é nada disso!

O tempo é cruel, né?
As pessoas dizem que chegamos à boa idade, mas é um saco, porque toda hora tem alguma coisa. No último ano, operei os joelhos, que foram muito bem usados na minha vida. Não teve jeito, não posso mais dançar. Cheguei ao “terceiro tempo”, mas me preparei para envelhecer bem.

De que forma?
Primeiro vem sempre a cabeça, meu amor, para sobreviver com dignidade. É preciso cuidar do psicológico, da espiritualidade. Sou budista há 
20 anos, pratico meus mantras. Sinto que, assim, fico com mais energia vital.

E o corpo?
Do jeito que sei cuidar dele, não posso mais (risos). É um tal de cuidar da alimentação, de um remedinho. O corpo fica fraquinho, enche o saco. É um nem-nhem-nhem. Não posso nem fazer caminhada por causa do joelho. E não vem com essa história de “ah, mas você está maravilhosa, viu? (gargalhadas)”! Não me engana!

Confessa, ainda há uma Tieta aí dentro?
Não dá mais para ser aquela mulher. Ninguém com 60 anos é símbolo sexual mais. Não dá. A gente é ajeitadinha, no máximo.

Mas qual é o lado bom de ganhar mais experiência?
Bate uma liberdade louca! E eu sempre a persegui. Hoje, não preciso ser uma velha loira, por exemplo. Olha aqui, ó, é tudo natural (aponta para os cabelos grisalhos). Sem química! A única coisa virgem em mim são os cabelos (risos).

Acredita que, por ser mulher, sempre lhe negaram essa tal liberdade?
A tendência é essa, mas aí você dá uma banana para esses canalhas e não permite que isso aconteça! Veja bem, até na ficção os homens mais velhos ficam barrigudos, papudos, horrorosos e continuam traçando as garotinhas. E tudo bem, tudo normal. Agora, ai se é com a gente (com mulheres)...

Ao rever a vida, qual sensação vem à sua cabeça?
A de que sobrevivi. Sou uma sobrevivente de ventos, tempestades e muita trovoada. Gratidão é uma palavra que está na moda, mas é o que sinto. Todo dia acordo e agradeço por estar viva, por tudo o que tenho. É um privilégio chegar à minha idade podendo conversar com você, mais jovem, dando alguma informação que preste (gargalhadas).

E como sobreviveu?
Quando entrei no budismo, baseei minha existência na ideia de que a vida tem quatro sofrimentos e ninguém escapa a eles. São o nascimento, a doença, a velhice e a morte. Quando você tem consciência de que vai passar por essas coisas, a existência fica leve, leve.

21/04/2017 - 16:26

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