Dan Stulbach: “Na vida, não dá para querer ditar a felicidade dos outros!”

Um dos destaques de A Força do Querer, o ator quer honrar o ofício ao levar para o público a discussão sobre transexualidade, baseada na personagem Ivana

Daniel Vilela

Dan Stulbach em viagem ao norte do país para gravar os primeiros capítulos de A Força do Querer | <i>Crédito: Globo / Estevam Avellar
Dan Stulbach em viagem ao norte do país para gravar os primeiros capítulos de A Força do Querer | Crédito: Globo / Estevam Avellar
As meias brancas até as canelas marcam a tentativa do paulistano Dan Stulbach de se tornar um pouquinho mais carioca. Despojado, ele se senta para a nossa conversa, brinca que o visual é perfeito para dar uma corridinha no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões-postais do Rio. Mas confessa: não tem sido possível agradar a todos. 

O Edson Celulari disse que estou absolutamente ridículo”, fala, às gargalhadas, sobre o clima com seus parceiros de cena em A Força do Querer. E vai além: “Tenho a sorte de estar ao lado de pessoas queridas”, derrete-se, sobretudo referindo-se a Maria Fernanda Cândido, sua amiga pessoal e com quem já trabalhou no teatro e na novela Esperança (2002). 

Em sua volta aos folhetins (o mais recente havia sido Fina Estampa, 2011), o astro não se deixa levar pelo já sucesso de seu personagem, o advogado Eugênio, que cresce a cada dobradinha com a filha, a transex Ivana (Carol Duarte).  

Os papéis estão no centro de uma das tramas mais delicadas e discutidas da novela. Afinal, ela abordará a transição de gênero da jovem. “Já não tenho mais a pretensão de mudar o mundo, mas acho que uma das funções da TV é esclarecer sobre esses assuntos, ajudar a diminuir a discriminação”, pondera Dan, que, por iniciativa própria, entrevistou transexuais para mergulhar nesse universo. 

Afinal, ao seu modo, Dan também sabe como é não corresponder a eventuais expectativas de familiares. “Os pais têm sonhos para os filhos e todo mundo já sentiu bem o peso de seguir ou não essas projeções”, comenta ele, que, apesar da vontade dos parentes de vê-lo engenheiro, decidiu ser ator. 

Mesmo hoje, em dose dupla no horário nobre – ele apresenta ainda a série História Não Escrita, na Band –, Dan sente-se agradecido a cada pessoa que dedica um pouquinho de seu tempo a prestigiá-lo, seja na TV ou nos palcos. “Já fui operador de luz e bilheteiro para poder me sustentar. Outro dia, encontrei Aracy Balabanian, que me abraçou dizendo que eu ainda era “seu contrarregra”.  Lá atrás tratei dela no teatro, varria o chão, servia café, arrumava a roupa no camarim”, lembra, orgulhoso e eternamente grato aos queridos companheiros.  

TITITI – Por que ficou tanto tempo afastado das novelas?
Dan Stulbach – Não pintou oportunidade. Quer dizer, houve algumas, mas não tinham muito a ver comigo. Moro em São Paulo, então ficar fora de casa, imerso, vivendo em função de uma novela é bem desgastante. Minha vida pessoal sempre acaba um pouco de lado. Mas, nesse meio-tempo, fiz filmes, teatros, séries e nem sempre dava para conciliar. Também quis dar uma virada na vida e virei apresentador (inclusive do CQC, da Band, em 2015).

E o que o levou a aceitar o convite desta vez?
O fato de ser uma trama de Gloria Perez pesou. O texto é maravilhoso e o Eugênio é o personagem mais íntegro, honesto e ético que já fiz. 

Mas os folhetins têm um lugar especial no coração?
Fui criado assistindo a novelas e não tenho nenhum preconceito com o gênero. Gostava de imitar os personagens, como o Sinhozinho Malta (Lima Duarte), de Roque Santeiro (1985). Sabe que também adoraria ter feito o Victor Valentim (Luis Gustavo) ou o Jacques Leclair (Reginaldo Faria) de Ti Ti Ti (1985)? Sempre quero fazer uma boa novela.

O lado apresentador surgiu de que maneira?
Foi sem querer. Tinha acabado Senhora do Destino (2004), um sucesso, estava impactado com tudo aquilo e queria algo diferente, novo. Veio a ideia de fazer rádio... Fiquei 11 anos com o Hora do Expediente, na CBN. Deu tanto certo que voltei para a TV (risos).

Prefere estar de qual lado numa entrevista?
Gosto mais de fazer perguntas do que de respondê-las. 

As suas cenas com a Carol Duarte são lindas. Já se conheciam?
Ela também cursou a EAD – Escola de Arte Dramática da USP (Universidade de São Paulo). E é uma ótima atriz! Vocês devem estar adorando-a, né?!  Nossas cenas são incríveis, mesmo... Delicadas, interessantes, verdadeiras. É o melhor caminho que a gente tem para seduzir as pessoas e trazê-las para a discussão. 

Teme que a trama sofra boicotes por parte dos mais conservadores?
Não tenho o menor medo. Sei que, no fundo, vão existir. Mas é importante que o diálogo exista, não se feche numa redoma, com suas crenças, sem ouvir mais nada de ninguém. 

Precisou desconstruir os próprios tabus para o papel?
Por minha iniciativa, entrevistei cinco transexuais. Filmei tudo e ofereci para a emissora. Queria aprender sobre o assunto, derrubar a minha estupidez. O preconceito é filho da ignorância. E, de repente, você está na TV, esclarecendo e possibilitando as pessoas diminuírem a discriminação... é bom demais. Honra a profissão!

O que mais o assusta sobre essa polêmica?
Nossos quereres são diferentes, mas nosso desejo de sermos felizes é o mesmo. A maneira que uma pessoa tem de encontrar a sua pode ser absolutamente diferente da minha, mas é legítima. Às vezes, a religião, a lei ou a gente mesmo quer ditar o que faz bem para alguém. Na vida não dá para ditar a felicidade dos outros. Isso é ditatorial.

As pessoas ainda têm medo do Marcos de Mulheres Apaixonadas (2003), que espancava a esposa feita por Helena Rinaldi com raquetadas? 
Outro dia decidi voltar a jogar tênis. Havia parado por razões óbvias (risos). Todo mundo olhava, mas ninguém deu um pio. Achei engraçado. Apesar de não ter sido meu primeiro trabalho foi o que mais pegou. Não tinha a noção na época.

Sua vida mudou muito ali?
Sim, tinha até um segurança na porta de casa porque sofri várias ameaças de morte, 
não era bem atendido nos restaurantes, as mulheres nunca se sentavam do meu lado no avião. Vamos combinar, outra época. A TV a cabo e a internet ainda engatinhavam. O envolvimento era maior.

28/04/2017 - 15:38

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