Eliane Giardini: “Nunca fiz uma personagem tão antipática!”

A preconceituosa Nádia, de O Outro Lado do Paraíso, tem causado revolta no público graças ao comportamento racista, sobretudo contra a empregada Raquel

Daniel Vilela

Casada com Gustavo (Luis Mello) e mãe de Bruno (Caio Paduan) e Diego (Arthur Aguiar), é uma mulher preconceituosa. Se posicionará contra o romance de Bruno e Raquel (Erika Januza), pois a jovem é negra. | <i>Crédito: Globo/Raquel Cunha
Casada com Gustavo (Luis Mello) e mãe de Bruno (Caio Paduan) e Diego (Arthur Aguiar), é uma mulher preconceituosa. Se posicionará contra o romance de Bruno e Raquel (Erika Januza), pois a jovem é negra. | Crédito: Globo/Raquel Cunha

De canto de olho, Eliane Giardini espia o movimento das bolsas próximas. Teme as mais pesadas, aquelas que carregam as chaves de casa, um vidro de perfume, alguns batons, o celular, a carteira... “Não quero levar bolsada de ninguém nas ruas”, diz a artista, brincando com relação a um eventual retorno do telespectador de O Outro Lado do Paraíso. Tudo culpa de sua insuportável personagem na trama global das 9, a racista Nádia.

Não é para menos o temor. Nádia é capaz de dizer as maiores atrocidades (especialmente a Raquel, feita por Érika Januza, pelo fato de ela ser negra) sem o menor remorso. “Levei um susto quando li o texto pela primeira vez, porque ela não tem nenhum filtro”, comenta Eliane. “Ainda bem que ela é tão, mas tão diferente de mim que não tem como as pessoas confundirem a atriz com a personagem”, comenta a musa.

Além de humilhar Raquel, Nádia chegou a comentar que se Clara (Bianca Bin) apanhou do marido, Gael (Sergio Guizé), é porque deu motivo. “Ela é racista, odeia os mais pobres e ainda é fofoqueira. Enfim, tudo o que você quiser de pior”, analisa a estrela, acostumada a tipos que costumam ganhar a simpatia do público, como foi o caso da viúva Neuta de América (2005); a Muricy de Avenida Brasil (2012); e a Anastácia de Êta Mundo Bom! (2016).]

Por tudo isso mesmo, a repercussão em torno dos primeiros capítulos de O Outro Lado impressiona a estrela. “Já me avisaram que no Twitter todo mundo está querendo matá-la”, conta Eliane, que quer, de verdade, colocar, o dedo na ferida. “Tem de causar mesmo, quem sabe vendo isso tudo as pessoas não se tocam e descartam essas posturas e atitudes completamente fora do nosso tempo?”

Para encarnar com maestria essa perigosa perua, Eliane colocou aplique nos cabelos e clareou os fios. “Jamais pensei em ficar loira a essa altura do campeonato. Dá um trabalho... Meu cabelo crespinho era bem mais fácil de lidar”, fala, aos risos. “A Nádia está ali, sempre montada, bela, recatada e do lar. É capaz de dizer as maiores barbaridades vestida de rosa-bebê”, alfineta ela, sobre a dondoca, que diz ver, infelizmente, aos montes por aí. “É só dar uma volta no shopping center!”

TITITI – Mas que baita vilã Walcyr Carrasco foi lhe arrumar, hein?
Eliane Giardini
– Não diria nem que é uma vilã, porque até para fazer maldade é preciso inteligência. Nádia é bobinha, mas em compensação comete atrocidades. Uma inconsciente, uma inconsequente! Uma dondoca que se acha superior porque é casada com um juiz. Crê que tem praticamente foro privilegiado. Ela é o egoísmo em pessoa, barra- pesada. Nunca fiz uma personagem tão antipática.

Dá para não carregar a energia pesada dela para casa após as gravações?
Graças a Deus, estou bem longe dela na vida real, então não chega a me contaminar. Difícil vestir um personagem que é tudo o que você não quer para sua vida. Sempre defendi  meus papéis, mas agora não dá. A Nádia quero que vá para a cadeia! É como vestir a pele de um bandido.

E como é dizer tantos absurdos em cena?
Céus, a Érika Januza é uma deusa e a maltrato tanto em cena. Foi bem difícil no começo, mal conseguia falar de tão grosseiro e agressivo que era. Espero que a Nádia cause muito desconforto, porque senão penduro minha chuteira. Se não causar (revolta), ou o povo está muito anestesiado ou não estarei sabendo fazer.

Pelo visto, tem dado certo...
Não quero apanhar na rua (gargalhadas). Creio que o público sabe diferenciar a Eliane da Nádia. São muito, mas muito diferentes.

Conhece alguma Nádia?
Claro, e são muitas! Várias! Tenho descoberto tantas por aí, fazendo pesquisa... Espero que essas pessoas se vejam na personagem, se identifiquem e possam mudar. Inconsciência tem cura, sim, senhor.

Dá mesmo para virar o jogo?
Apesar de dizerem por aí que o brasileiro é cordial, a gente vive num país muito racista e violento. Mas, graças a Deus, o mundo vem mudando e a gente tem que seguir essa onda. Fomos criados de forma muito preconceituosa, temos que nos reeducar. Por isso é importante martelar esses temas, para que as pessoas pensem e se libertem. Tem muita gente que precisa do aval desse mundo glamouroso da novela para mudar. É o serviço social da novela das 9.

Acredita na lei do retorno, o mote da história?
É natural esse bate e volta e  não tem nada de místico ou espiritualista nisso. Por exemplo, se você trata mal alguém e essa pessoa não se sente respeitada, ela vai devolver. A própria vida se encarrega de manter tudo em equilíbrio.

Qual é o outro lado de seu paraíso?
Ave Maria! O meu inferno? Acho que é um purgatório coletivo, esse avanço da direita, do conservadorismo, esse retrocesso todo que estamos vivendo no momento.

O mundo está careta?
Encaretou geral! É um movimento mundial, na verdade, não só do Brasil. Ainda estamos no olho do furacão, não sei o tamanho do estrago. Minha geração lutou tanto para quebrar tabus, criar novos valores, pediu por liberdade e, de repente, fecha-se tudo de novo. Outro dia, vendo o final de Os Dias Eram Assim, que se passava no fim dos anos 1980, me choquei. Estamos passando por tudo de novo.


Aliás, ainda há muito pelo que lutar, não é?
Tenho muito orgulho da minha geração, que revolucionou o mundo. Nada mais natural que isso se mostrasse também na maturidade. A gente veio para mostrar que existe vida após os 40, os 50, os 60! Não é mais  só esperar pelos netos. Aliás, acabei de ser avó! Minha filha Mariana Betti (fruto do casamento da atriz com o astro Paulo Betti) já carrega nos braços o nosso bebê (Antônio). E, ao mesmo tempo, estou aqui trabalhando, gravando 15 cenas por dia, me cuidando da melhor forma possível...

E quais os cuidados dos quais não abre mão?
Não tenho nenhuma restrição alimentar nem nada, mas busco equilíbrio. Se um dia como demais, no outro já é um pouco menos. Atividade física, estou em falta. Estava superdisciplinada nas férias, fazendo pilates e caminhadas, mas depois que a gente começa a gravar, a vida vira do avesso.

Lida bem com a passagem do tempo?
Amado, a gente não tem muita opção, né (risos)? Claro que você se ressente, dá uma pena de ver a vida passar. Mas tem seus ganhos também. Muitos.


E como enfrenta as suas angústias?
Todo mundo tem seus momentos de melancolia, de baixa autoestima, mas sempre dou um jeito. Tenho uma família maravilhosa, faço terapia, gosto de um bom vinho (risos). Tudo isso nos ajuda a sair da lama. Mas, graças a Deus, nunca precisei enfrentar uma depressão.

Onde mais encontra força para seguir?
Eu medito muito. Consigo dar uma afastada nas energias ruins. Se você cruza os braços e não faz nada, vai para baixo facilmente. Existe um esforço e um trabalho emocional e psicológico para se manter de pé. Isso é sempre bem importante.

27/11/2017 - 15:15

Receba as novidades da Tititi em seu e-mail! Cadastre-se abaixo:

*preenchimento obrigatório

Conecte-se

Revista Tititi