Fernanda Montenegro: “Não me arrependo de nada do que já vivi”

Aos 88 anos, sendo 70 de carreira, a grande estrela da nossa arte revela o apreço pela vida, diz que na sua não há espaço para remorsos e decreta: “Acho que só segui o meu coração”

Daniel Vilela

Indicada ao Oscar de Melhor Atriz e vencedora do Emmy Internacional na mesma categoria, Fernanda Montenegro está no ar em seu 42º trabalho na televisão | <i>Crédito: Globo / Cesar Alves
Indicada ao Oscar de Melhor Atriz e vencedora do Emmy Internacional na mesma categoria, Fernanda Montenegro está no ar em seu 42º trabalho na televisão | Crédito: Globo / Cesar Alves

Um cantinho escondido entre ruas de Ipanema, no Rio, guarda um pedaço do coração de Fernanda Montenegro. Uma vez ou outra, ao passar por lá, deparei com ela, absolutamente anônima, na pequena praça que leva o nome do saudoso astro Fernando Torres. “Ali meus olhos se enchem de lágrimas. É um lugar bonito, muito bem cuidado. Sinto que os moradores em volta gostam”, diz a estrela, feliz com a homenagem ao companheiro de toda uma vida e que nos deixou em 2008.

Por 56 anos, os dois dividiram um amor, que se repartiu e seguiu em frente nos filhos, a atriz Fernanda Torres e o cineasta Claudio Torres. E outra  paixão que nossa querida Fernandona se encarrega de levar adiante é o ofício de interpretar. “Não penso em parar de atuar, não tenho vocação para cadeira de balanço”, sentencia ela, que acaba de estrear o 42º trabalho na televisão, O Outro Lado do Paraíso.

Na trama de Walcyr Carrasco, Fernanda é Mercedes, uma mística que ouve vozes e transforma a própria casa em um abrigo para pessoas quando o fim do mundo se aproximar. “Ela está aqui para socorrer o próximo, a missão dela é fazer o bem”, descreve a diva, que diz ter também um lado meio bruxa. “Só não ouço nada e nem tenho o privilégio da mediunidade”, brinca.

Se Mercedes espera a catástrofe final, Fernanda, a primeira latino-americana a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz e primeira brasileira a ganhar o Emmy Internacional (por Doce de Mãe, de 2013) não quer saber de despedida. “Vivi a vida plenamente e vou ter pena de ir embora”, dispara ela, que, aos 88 anos, afirma carregar uma pretensão. “Acordar de manhã e ter fôlego para continuar é o que mais desejo.”

TITITI – Você tem um lado místico como a Mercedes?
Fernanda Montenegro – É aquela coisa de Santo Agostinho: “Se você duvida, já acredita”. Como esse extraordinário pensador feito santo, essa frase é tão bonita! Te põe no colo. Quem não pede algum socorro na hora de desespero? Até o mais ateu diz o seu “graças a Deus”(risos). 

E, como ela, costuma dar conselhos a quem lhe pede?
Não sou de aconselhar, mas se me pedem uma opinião, eu dou. Mas não fico em cima das pessoas ensinando a viver, cada um tem seu caminho. Sou incapaz de dizer a alguém o que ela deve ou não fazer.

Mas o que aconselharia a um jovem ator, por exemplo?
Se quer trabalhar na TV, não perca tempo com o teatro. O teatro é lento e vai exigir anos de entrega. A TV, não. Pode-se ser bem-sucedido até mesmo sem talento. O processo eletrônico forja o que quiser. Se não acertar, repete-se. Não quer dizer que um seja superior ao outro. Quem sou eu para julgar? Se uma atriz jovem precisar, espero pingarem uma lágrima para gravar. Tenho que entender. Mas, no palco, a plateia não espera. Vai vaiar (se não convencer).

Entrar em cena a balança, dá certo nervoso?
Total! Todo santo dia dá aquele friozinho na barriga.

Carrega algum remorso?
Não me arrependo de nada do que já vivi. Mesmo as coisas mais duras e desagradáveis, com o passar do tempo, tornam-se sabedoria. Parece filosofia barata, mas é real. Às vezes, a gente dobra uma esquina no nosso caminho e pensa que se perdeu na vida. Mas lá na frente vê que foi bastante necessário.

E chegar aos 88 anos de forma tão vital e plena, hein?
Jamais achei que chegaria aqui... Quando era jovem, achava que isso era o equivalente a mil anos (risos).

Aposentadoria?
Às vezes, até acho possível.Mas não dá. O trabalho exige que você acorde e cante todos os dias. A vida de um ator é estressante, mas o desafio vicia. Não é como ser bancário, em que se pede a Deus a aposentadoria. Se bem que, quando se tem vocação, capaz até do mesmo acabar dono do banco, não é (risos).

A finitude da vida a assusta?
Aos 80 anos não, mas hoje penso muito na morte. Acordo, abro os olhos e digo: “estou viva”, para só então seguir com mais um dia.

O que é a vaidade para você?
Em primeiro lugar, cuidar da minha saúde e ter uma alimentação boa. Não me privo do que quero comer, mas já comi mais do que hoje (risos). Já fui a jantares, banquetes. Fazia teatro e saía morta de fome daquelas peças enormes de três atos ou mais. A idade te põe à prova. Fora isso, tomo dois banhos por dia, escovo os dentes e coloco um creminho na pele, sim. Mas só!

Faria plástica?
Não. Quanto mais se opera, mais fica-se deslocado do seu tempo. E aí não tem papel. Não se é mais jovem por motivos óbvios, não se está na meia-idade, já que se tirou todas as possíveis rugas e papos, e nem é possível encenar a velhice, pois se escondem os anos. Aí não tem papel que segure. O cara não vai para lugar nenhum, fica indefinido.

Manter os fios de cabelo brancos lhe fizeram bem?
Ainda não me acostumei com eles. Foram muitos anos pintando, não é? Acho confortável deixar o cabelo branco. É repousante, porque pintar toda semana é um horror! Uma hora a tinta não pega mais na raiz. Hoje estou com ele todo natural. Há vantagem na velhice: estou natural como era quando criança.

E o corpo?
Sou magra de natureza. Aliás, eu estou até gorda (risos). Já fui uns 10 kg mais magra nesta vida.

Sua personagem em Babilônia (2015) sofreu preconceito por ter uma companheira. Contudo, A Força do Querer (2017) mostrou que as pessoas abraçaram o Ivan (Carol Duarte), que era transexual. Evoluímos?
Aceitam o jovem, mas duas senhorinhas de 80 e tantos anos terem um caso, e ainda trocar um ligeiro beijo na boca, é um escândalo inexplicável. Assustador. A gente pensa que o mundo caminha, mas não. O preconceito esconde isso na idade mais velha: “vamos deixar isso na mocidade, até os 40  é suportável”. Depois, não se pode nem beijo, mesmo com o casal junto há 70 anos.

A sociedade está careta?
O careta tem todo o direito de ser careta. Cada um tem o direito de pensar e querer o que quiser. Mas o desejo de extinguir o que pensa o contrário diante de um fato ou de uma postura humana é o que é verdadeiramente assustador.

Curte redes sociais?
Não cheguei lá ainda! Tenho só um celular em que mal faço ligações. Minha secretária gerencia a página do Facebook e me conta quem está falando bem de mim e, às vezes, até de quem fala mal (risos).

A Arlete (nome verdadeiro da artista) e a Fernanda são a mesma pessoa?
Sou esquizofrênica (risos). Nunca achei que isso ia dar certo, mas a Arlete, quando fala, o faz através dessa entidade chamada Fernanda Montenegro. Mas, quando chega a hora da futrica maior, ela se apresenta. Contudo, queira ou não, ninguém sabe quem é dona Arlete Torres, porque é uma senhora doméstica. O que veem é a senhora do mundo, que vive nos palcos deste país, a sua porta-voz Fernanda.

10/11/2017 - 14:43

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