João Carlos Martins: “Não é que a música me ajudou... Ela salvou a minha vida!”

Ele reforça: foi graças à música que continuou a trajetória como um dos mais renomados maestros do planeta

O maestro João Carlos Martins | <i>Crédito: Fernando Mucci
O maestro João Carlos Martins | Crédito: Fernando Mucci

Considerado um dos maiores intérpretes de Bach do século XX, João Carlos Martins é um exemplo na história da música, não só nacional mas internacional. Sua vida já foi enredo da tradicional escola de samba Vai-Vai, de São Paulo,  também ganhou homenagens  da Grande Rio, do Rio de Janeiro, e inspirou produções internacionais como Revêrie, Die Martin’s Passion (2004).  

Em agosto deste ano, a história do ídolo foi parar nas telonas com o filme João, o Maestro, protagonizado por Alexandre Nero, com direção de Mauro Lima.

Tributos mais do que merecidos, já que o paulista é um dos mais respeitados regentes do mundo e apaixonado pelo ofício desde cedo. Tanto é que João começou a estudar piano aos 8 anos, iniciou carreira aos 13 e aos 18 anos dava seus primeiros passos rumo à trajetória no exterior. 

Em 2002, devido a problemas físicos, especialmente nas mãos, teve de abandonar o piano e descobriu na regência uma maneira de se reinventar. “Tudo faz parte, não me arrependo de nada e, graças a Deus, procuro em cada apresentação passar para aquelas pessoas que estão me assistindo, a emoção sentida dentro do meu coração. Essa é a função de um artista”, afirmou. 

E ele completa dizendo que a música não só o ajudou como também salvou a sua vida em momentos delicados. 

Feliz, João comemora o lançamento do Orquestrando São Paulo, que aconteceu no mês passado. Trata-se de um projeto em parceria com o Sesi-SP (Serviço Social da Indústria) e a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que capacita regentes e pretende formar 300 orquestras até 2020. “O Orquestrando São Paulo vai se transformar no Orquestrando Brasil”, completou ele, que encerra no dia 16/11, no Theatro Municipal de São Paulo, a temporada  2017 da Bachiana Filarmônica Sesi-SP. “Algo maravilhoso! Ano que vem voltamos para a Sala São Paulo. Estes são os dois principais teatros da capital e da América Latina, sem dúvida alguma.” 

Além disso, o maestro, a Orquestra Bachiana Filarmônica e a dupla Palavra Cantada fizeram dois shows inesquecíveis no Espaço das Américas, no dia 15, em SP. O evento fez parte do Festival de Música GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer). Vamos ao papo?

TITITI – São 64 anos de carreira, uma linda e emocionante história na música. O que mudou do menino que começou a trajetória no piano para o grande maestro de hoje?
João Carlos Martins
– Nada! O sentimento que tinha em relação à música aos 8 anos, eu tenho aos 77. Ela une gerações, povos, comunidades. Antes de tudo, considero o músico um missionário.

Como foi receber a homenagem da Vai-Vai em 2011 (a escola foi campeã) e também na Grande Rio, no ano seguinte?
O enredo da Vai-Vai era sobre a minha vida. A Grande Rio foi uma homenagem, uma participação especial. Quando você vê a música clássica no Sambódromo da Marquês de Sapucaí (RJ) ou no Anhembi (SP) é uma forma de ajudar a democratizar a música clássica no Brasil. Entrar na avenida com 30 mil pessoas cantando o enredo da sua vida, como na Vai-Vai, foi uma emoção.

Aliás, o samba-enredo fala da força de superação. O que passou na sua cabeça naquela fase (2002), quando teve que abandonar o piano por problemas físicos?
Achei que na época tive a maturidade suficiente pra continuar na música através da regência. Maturidade que poderia ter tido antes, talvez, quando tive outros problemas. 

Qual o significado de continuar a carreira como maestro e vencer obstáculos?
Significa que você tem dois tipos de obstáculo: aquele que é  intransponível e você tem que ter uma determinação de ultrapassá-lo e aquele que Deus colocou e você não pode ultrapassar. O primeiro você precisa ter determinação e para o segundo, humildade. O grande segredo da vida é distinguir um do outro.
 
O que nunca o fez desistir?
Não é que a música me ajudou, ela salvou a minha vida. Então, devo a ela tudo o que consegui até hoje.

Por que diz que ela o salvou?
Porque eu podia ter me perdido totalmente quando tudo parecia impossível. E foi através dela que continuei minha trajetória.

E ser um dos maiores maestros do mundo?
Como músico, acho que tive uma importância na gravação da obra de Bach. E, como maestro, fiz um trabalho aqui no Brasil e às vezes fomos para o exterior... Um trabalho que mostra que o maestro tem de ter o mesmo amor e a mesma dedicação em um concerto numa comunidade ou no Carnegie Hall (em Nova York). 

Como é trabalhar com jovens talentos?
É uma forma não de ensinar,  mas de você aprender. Você aprende muito nesse momento da vida com jovens interessados na música.

Que marca ainda quer deixar quando encerrar a carreira?
O Orquestrando São Paulo vai se transformar no Orquestrando Brasil e, quando apagar as luzes, todos os sonhos que tive irei realizar. 

27/11/2017 - 15:17

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