Lilia Cabral: “Não sou dama de nada, nem da noite!”

Aos risos, a estrela se desvencilha do rótulo de grande intérprete da nossa dramaturgia e opina sobre polêmicas

Daniel Vilela

Lília Cabral é a Silvana de A Força do Querer | <i>Crédito: Globo/Raquel Cunha
Lília Cabral é a Silvana de A Força do Querer | Crédito: Globo/Raquel Cunha
Quando chega a hora de colocar as cartas na mesa, mesmo podendo contar com inúmeros valetes e reis, a novelista Gloria Perez sabe que pode apostar altíssimo com um ás que guarda na manga. Trata-se de Lilia Cabral, que rouba a cena em A Força do Querer, como Silvana, uma arquiteta viciada em jogo e que, em breve, levará a família à ruína por causa disso. “Antes da novela eu não sabia nada de pôquer. Mas, quando fui jogar, até que me dei bem”, revela rindo a atriz, avessa aos carteados que frequentou para compor sua personagem. “A compulsão é algo que pode acontecer com qualquer um de nós, não só com quem joga. Ninguém está livre (da dependência)”, pondera.

Mesmo sendo difícil encontrar alguém do naipe de Lilia, a artista não quer saber de ser uma “dama” no jogo de sua vida e da profissão. “Tenho o maior orgulho quando as pessoas me falam essas coisas incríveis, mas, realmente, não me vejo assim”, diz ela, sobre ser considerada uma das grandes intérpretes de nossa dramaturgia. O reconhecimento, para ela, vem de muito trabalho, suor e esforço. “Nunca quis desperdiçar as chances que tive”, revela, lembrando que levou mais de uma década até fisgar o papel que mudaria de vez sua trajetória, a neurótica Sheila de História de Amor (1995).

Durante a preparação para o atual folhetim em horário nobre, Lilia descobriu que o talento como atriz também  ajudaria nas partidas com 
o baralho. “Todo jogador, no fundo, é um bom ator”, pondera, lembrando-se de que o blefe, muitas vezes, extrapola as mesas de jogo e acaba tomando conta da vida das pessoas. “A própria Silvana vive dentro de uma mentira, contando uma aqui e outra ali para esconder o vício”, explica a mãe de Giulia, de 19 anos, fruto do casamento com o economista Ewan Figueiredo.

TITITI – Silvana é mais uma das mulheres fortes no seu rol de papéis? 
Lilia Cabral – Ela é uma mulher bem-sucedida e, sim, forte. Mas, no jogo, é fraca. Lá ela não é vitoriosa. E não é porque não sabe jogar, mas porque tem uma ansiedade em querer ganhar e não possui inteligência para saber a hora de sair da disputa. Ela gosta é da adrenalina. E um bom jogador sabe a hora de bater em retirada.

Você tem algum vício?
Chocolate (gargalhadas). Gosto de comer, mas não chega a ser uma compulsão, né?

Mas é boa de jogatina?
Tenho problema com jogo porque não gosto de perder (risos). Nem na loteria eu jogo. Uma vez fiz uma fezinha daquelas e não acertei nenhum número. Acho até que tinham de dar um prêmio para quem não acertasse nada, porque é muito difícil isso (gargalhadas).

Como foi a visita ao Jogadores Anônimos (JA), parte de seu laboratório?
O que me surpreendeu é o semblante tranquilo das pessoas que frequentam. Em um alcoólatra ou dependente químico dá para perceber no rosto o quanto ele mudou. Com o jogador, não. A família só percebe quando o patrimônio se deteriorou. É terrível. Eles mentem tanto – e tão bem – que poderiam até ganhar um Oscar. 

Inspirou-se em alguém para compor a Silvana?
Não me inspirei em ninguém específico, até porque estamos lidando com a vida de outra pessoa. Não é fácil se ver retratado na televisão. Ainda mais porque pessoas que jogam escondem isso por anos e, às vezes, nem elas sabem que possuem um vício. Conversei com vários dependentes, mas quis colocar isso bem longe da nossa realidade.

Por que indicou Juliana Paiva para ser sua filha no folhetim?
Sempre que possível, eu via Totalmente Demais (2015) e ali entendi que ela é uma boa atriz. Logo, logo Juliana vai protagonizar uma novela, porque tem credibilidade, carisma, empatia... enfim, tem tudo! Quando me perguntaram quem eu queria que fosse minha filha, não tive dúvida. 

Silvana vai apoiar a sobrinha, Ivana (Carol Duarte), em sua transição de gênero?
Essa é uma questão muito pertinente, porque as pessoas vão perceber que, além da sexualidade, existe ali uma questão da identidade, de como a pessoa se enxerga. Silvana, tenho certeza, será a favor da sobrinha. Mas, olhando bem para o Eurico (Humberto Martins), a gente já sabe que não vai ser.

Como entrou em contato com o tema transexualidade?
Assisti a alguns episódios de Liberdade de Gênero, no GNT, e é fantástico, porque basta um deles para você entender que é uma questão de identidade, de como a pessoa se enxerga. Porém, o que mais gostei de ver foi o lado humano, da família. Existem etapas, ninguém aceita de cara. A maioria encontra dificuldade de entender, mas você vê as pessoas mudando suas ideias, seus valores.

E você, Lilia, como reagiria em um caso desses?
Jamais abandonaria (um parente), estaria ao lado, defendendo com unhas e dentes.

Que balanço faz até aqui de sua carreira?
Claro, é bom quando a gente olha para trás e vê que tudo o que queria aconteceu. Mas isso não significa que você será sempre a melhor, um sucesso. Tenho tanta coisa para fazer ainda... Já conversei com vários amigos e, entre a gente, esse negócio de “ah, daqui a dois anos vou me aposentar” não existe. Estou sempre buscando desafios. 

Mas você é, sim, uma das grandes damas de nossa dramaturgia...
Não sou dama de nada, nem da noite (gargalhadas). Não gosto do rótulo. Claro, sempre fico envaidecida ao ouvir um elogio, mas me sinto feliz é pelo reconhecimento do trabalho. E não por um rótulo!

11/05/2017 - 17:47

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