Lima Duarte: “Vi a televisão nascer e também morrer!”

Ele viu o auge do rádio, da TV e avisa: “Não contem comigo para a internet!”

Daniel Vilela

Lima Duarte encara o seu 93º trabalho na televisão, a novela O Outro Lado do Paraíso | <i>Crédito: Raquel Cunha/TV Globo
Lima Duarte encara o seu 93º trabalho na televisão, a novela O Outro Lado do Paraíso | Crédito: Raquel Cunha/TV Globo

Durante uma deliciosa conversa com TITITI, entre uma risada e outra, Lima Duarte não desgrudou do celular. Mas o ator, aos 87 anos, não está interessado em o que dizem, bem ou mal, sobre ele nas redes sociais. “Calma que não sei mexer, viu?”, avisa, enquanto procura por uma fotografia dele em O Outro Lado do Paraíso, como o caboclo Josafá. “Ele é bonitão”, diz brincando sobre o seu – acredite – 93º trabalho na TV. “E olha que eu estava lá quando tudo começou!”

Antes de recolocar o aparelho no bolso, Lima acaba deparando com uma foto antiga na qual aparece com amigos do Teatro de Arena no fim dos anos 70. “Esse da ponta é o Paulo José, olha como ele era lindo! Aqui do lado é Ana Mauri, do outro, Myrian Muniz”, enumera o astro, que, na época, já tinha acumulado inúmeras vitórias na carreira.  “Sou do tempo do rádio, que vi nascer e também morrer.”

Foi para ser ator de radionovelas que o mineiro Ariclenes, seu nome de batismo, saiu de Sacramento (MG) para São Paulo (SP) em cima de um caminhão de mangas. Adotou Lima Duarte por sugestão da mãe, América, que era espírita e sugeriu seguir com o nome do guia. “Era o espírito de luz dela, uma grande médium.”

Quando as radionovelas perderam espaço para a televisão, Lima também estava lá. Fez parte do elenco do primeiro folhetim da TV Tupi, Sua Vida Me Pertence (1951). Chegou à Globo para viver o antológico Zeca Diabo em O Bem-Amado (1973) e na emissora ainda encarnou os inesquecíveis Sinhozinho Malta, em Roque Santeiro (1985), e Sassá Mutema, em O Salvador da Pátria (1989). Mas são apenas  exemplo diante de papéis memoráveis. “Tenho conluio com o pessoal de casa, nos conhecemos tem é tempo.”

TITITI – Mesmo com a riqueza escondida em suas terras, o Josafá não está interessado nas pedras preciosas. Há um tesouro maior no qual está de olho?
Lima Duarte
– Dizem, onde ele pisa está cheio de esmeraldas, mas não procura isso. A fortuna dele está distante. Uma distância não só geográfica, mas mitológica. Josafá busca o primeiro amor, aquele que nutriu pela Mercedes (Fernanda Montenegro). Não é aquela paixão imediata, a do desejo, que acaba culminando em sexo. Os dois querem encontrar um no outro o sentimento que ficou no passado.

Seria essa simplicidade que o torna tão encantador?
Simples? Ele é do campo, mas o acho muito sofisticado, de uma delicadeza ímpar. Sim, ele é um matuto. Também acho Hamlet (protagonista de uma das principais tragédias escritas por William Shakespeare) um caboclo. 

Você também gosta dessa vida de caboclo, não?
Até tenho uma casa na Urca (bairro carioca), mas quantas vezes depois de gravar o dia inteiro não fui direto para  meu sítio no interior de São Paulo?  Vivo sozinho e só penso em meus personagens. Meus filhos e netos estão todos na Austrália. Agora que descobri o celular, fico aqui vendo as fotos deles. 

Como foi reencontrar Fernanda Montenegro em um folhetim? A vez mais recente, se não me engano, foi há 12 anos.
Rapaz, já fizemos tantas coisas boa juntos... E ainda mais coisas mais ou menos... E, meu Deus, quanta coisa ruim também (gargalhadas)! Quando estamos em cena, gosto de fazer bonito. Não por mim, mas por ela. Ah, sem falar na Laura Cardoso, uma velha amiga. Fazendo as contas, juntando as idades e os nove fora... posso dizer que são quase 300 anos de amor (gargalhadas).

Alguma novela, em especial, marcou a parceria de vocês?
Em Belíssima (2005), Fernanda e eu tínhamos até uma filha, que ela teve coragem de jogar fora. Tô até agora procurando aí nos lixões uma pista da Claudia Abreu, que viveu Vitória (risos). E também estivemos juntos em Rainha da Sucata (1990), ela era minha vizinha, Salomé. Grande amiga que, quando bati as botas, resolveu se jogar na sepultura e então todo mundo descobriu que me amava (gargalhadas).

Sente-se reconhecido por estar, novamente, em uma novela das 9 e tão bem acompanhado?
Não ligo para isso, todo horário é nobre se eu fizer um trabalho de qualidade. Já fiz o quê, uma dezena de novela das 9? Não importa. O que espero é que as pessoas se divirtam comigo porque, em última instância, são elas o patrão que nos paga.

Tenho certeza de que o público dá um bom retorno. São tantos personagens inesquecíveis...
As pessoas lembram deles, mas lembram até demais (risos). Alguns do Sinhozinho Malta, outros do Afonso Lambertini, de Da Cor do Pecado (2004)... O povo quer saber se continuo querendo melão, acredita (gargalhadas). (A frase foi dita por dom Lázaro quando voltou a falar, em Meu Bem, Meu Mal, de 1990, e virou grande brincadeira entre os brasileiros... Joga lá no YouTube para ver).

Por que esse carinho todo das pessoas com você?
A televisão envelheceu comigo, assim como o público. Somos cúmplices. Aqui, na Globo, estou há 48 anos. Você, por exemplo, era criança e me via por aí. E pior. Garanto que sua mãe foi jovem e me achava bonitão (gargalhadas). Acaba sendo útil, sabia? As pessoas olham para mim e pensam: “Lá vem esse cara fazer mais bobagem”. Gosto quando se divertem, dão risada comigo.

Tem falta dos companheiros de toda uma vida na telinha?
Tenho meus momentos. Um dia, precisei ficar gravando o dia inteiro porque iam derrubar aquele cenário, já que não precisariam mais. Entre uma cena e outra, esperando para gravar, olhei aquelas paredes, uma televisão velha ali e me pegando olhando para minha vida. Era 18 de setembro, justamente o mesmo dia em que, em 1950, foi ao ar a primeira transmissão da televisão brasileira. E eu estava lá.

Muita gente querida já se foi nesse tempo, não?
Só sobrou eu aqui, vivo, enfrentando mais um personagem. Lembro de Hebe Camargo, Vida Alves, Walter Foster... Eu vi a televisão nascer e também morrer. Quero dizer, ela já não é mais a mesma coisa, né? As tais das mídias sociais, junto com esses tais de Globo Play, Netflix, acabaram com ela. Agora, presenciamos a internet e, para isso, não contem comigo (risos). Já tenho 87 anos.

Não está nas redes sociais?
Quer saber? São a latrina do mundo! Um monte de besteira sobre mim, sobre a vida, sobre os sentimentos. Até me deram esse celular aqui, mais as fotos que meus filhos e netos me mandam bastam.

Mas ainda dá uma espiadinha na TV de casa?
Não vi A Força do Querer, que foi um sucesso. Fiz Caminho das Índias (2008), também da Gloria Perez, e acho que já entendi mais ou menos como que é (risos). Gosto mesmo é de ver um bom filme, o noticiário e, claro, o São Paulo Futebol Clube jogar!

13/11/2017 - 14:02

Receba as novidades da Tititi em seu e-mail! Cadastre-se abaixo:

*preenchimento obrigatório

Conecte-se

Revista Tititi