Papo Reto: Projota como você nunca viu!

Respeito pelas mulheres, machismo, ídolos, depressão. Ele tem o que dizer!

Por Patricia Battaglia

Projota | <i>Crédito: Eduardo Martins/ AgNews
Projota | Crédito: Eduardo Martins/ AgNews
Há mais de um ano e meio, o cantor, compositor, rapper e produtor musical Projota, dono de sucessos como Mulher, Oh Meu Deus e Cobertor (parceria com Anitta) vinha criando novo disco. E, hoje, aos 31 anos bem vividos, o paulistano José Tiago Sabino Pereira deu vida ao projeto: A Milenar Arte de Meter o Louco. Na ocasião do lançamento, na semana passada, o ídolo abriu o coração nesta exclusiva!

TITITI – Por que A Milenar Arte de Meter o Louco?
Projota – Sempre me achei louco e coloco isso em minhas músicas. E, mais uma vez, saiu naturalmente na hora de compor A Milenar Arte de Meter o Louco. Para mim, Jesus meteu o louco. Daí ‘A Milenar’. 

Como assim Jesus?!
Sim, porque tudo o que Ele fez foi meter o louco. Afirmou ser filho de Deus e acharam que era mentira, que não fazia milagre. E Ele ia lá e transformava água em vinho, multiplicou pães. Ele foi o maior metedor de louco da história! 

Mas o que define como “meter o louco”?
É fazer o que você tem e quer fazer... realizar o que dá com aquilo que se tem nas mãos. E o que Ele tinha? Ele tinha fé! 

E você? 
Ah, eu meto o louco sempre (risos)! Pra chegar aonde cheguei tive que fazer isso. Quando comecei a cantar rap todo mundo falava que era louco, que ninguém vivia de rap no Brasil e eu deveria prestar concurso público. Então, assumi essa loucura. Moisés meteu o louco, Martin Luther King, Nelson Mandela, Joana d’Arc, Madre Teresa de Calcutá... Nenhum deles ligou para o que os outros falavam e fizeram coisas grandiosas, que pareciam impossíveis.  

A fé também contou na sua trajetória de sucesso?
Sim, muito! Acredito muito em Deus e nas coisas que Ele promoveu na minha vida. Algumas pessoas ficam só esperando o mar se abrir, a montanha se mover, eu não. Acho que tem milagres no dia a dia, sim, como, por exemplo, um pai de família sair para trabalhar e conseguir voltar e colocar comida na mesa. Isso é um milagre. Eu sou um milagre!

Pode explicar mais?
Fazer o que faço no Brasil, conseguir cantar rap num país onde ele sempre foi dilacerado, isso é um milagre. Me perguntam se ainda tem preconceito... Respondo que agora é que tem... Antes ele era dilacerado. Os artistas (do gênero) eram humilhados pela mídia. 

Sentiu isso na pele, né?
Sim, há 16 anos, quando comecei, vi um rap num momento muito diferente do de hoje. Vivi em uma época em que o preconceito era imenso. Se você cantava rap, achavam que era ladrão... Era quase que sinônimo. E isso era muito louco, porque eu cantava rap exatamente por não querer ser ladrão. Mas tinha gente que escutava diferente... Tudo bem, porque a mensagem não era pra essas pessoas, era pra mim mesmo, um moleque vivendo na periferia e em zonas de risco de São Paulo. E eu entendia como: não seja ladrão, não use drogas! 

Nunca nem experimentou? 
Não, nunca usei droga na vida, jamais fumei um cigarro,  nem experimentei nada. Não bebo também... Na verdade, nunca fiquei bêbado... Experimentei o gosto da bebida alcoólica e não gostei, nunca achei legal beber para ficar bêbado. Então era bem diferente do que eles achavam. 

Foi o rap que lhe afastou de tudo isso?
Com certeza, componho desde criança, mas era rock. Com 11 anos, aprendi a tocar violão... fazia músicas para tocar na igreja, gospel mesmo. Aos 15, o rap chegou à minha vida, com Racionais MC’s. Esse tipo de música conversava bastante comigo. 

Tinha mensagem especial?
Sim, era como se fosse um amigo falando comigo, vivência que tinha. Sempre fui muito de periferia, vivia nas quebradas, fazia rolezinho... 

O que tem de novidade no atual CD?
Tenho escutado muito o estilo trap... Drake (rapper canadense), que adoro... Ele usa muito a batida do trap... Tem umas três músicas no meu trabalho que são assim. Estou sempre antenado pra tudo, mas só faço o que gosto... Segura Seu BO, Antes do Meu Fim e A Milenar Arte de Meter o Louco são traps no novo disco. 

Gosta de fazer parcerias bem diferentes, não?
Então, em 2014 fiz a primeira música com a Anitta, Cobertor, e aí surgiu um espanto positivo e um negativo. Dentro do rap gerou uma estranheza, que foi sendo domada até as pessoas entenderem o projeto. E quando a música é boa você já consegue calar metade (das pessoas). Lá fora essa barreira entre os estilos vem sendo quebrada há 20 anos... Estou fazendo isso há três, apenas. 
E depois fui fazendo canções com Negra Li, Jota Quest, Anavitória, Luiza Possi, Onze:20, Strike... Eu junto com pop, rock, funk... É fazer música boa com quem admiro. 

Ainda rolou preconceito quando você e Anitta criaram Faz Parte (2016)?
Sim, Cobertor já estava com 100 milhões de acessos, deu certo, mas se desse errado eu que teria de arcar com a consequência. Me chamavam de louco por eu ir à TV, aparecer na Globo, por eu ser rapper. Diziam que meu público iria me deixar, e os novos fãs  me deixariam porque só gostariam de modinha. Meti o louco de novo e coloquei minhas músicas na rádio, porque estava consolidado no rap, já tinha minha casa, as contas pagas e estava bem. Eu poderia ter parado ali. Mas não, queria ser grande mesmo, desejo navegar no mesmo lugar que a Ivete Sangalo navega... Quero colocar o rap lá. 

Também gravou com Marcelo D2... Como foi?
Nossa, Elas Gostam Assim, de 2014,  fez um baita sucesso, e a gente já imaginava isso pela batida dela. E quando os planetas se alinham e Deus quer, não adianta... A música foi tema do Caio Castro em I Love Paraisópolis (2015) e começou a tocar todo dia. O D2 é um ídolo meu desde pequeno, era um sonho fazer música com ele. Marcelo foi um dos primeiros caras muito grandes que vieram falar comigo, dizendo ser meu fã. E um dia mandei essa música para ele. 

Suas letras sempre falam de respeito à mulher... Alguma razão forte para isso?
O interessante vai ser quando a gente nem reparar isso mais... E as pessoas estão, sim, desrespeitosas com a mulher... Essa é uma sociedade tão machista que, pelo simples fato de eu falar do direito da mulher fazer o que quiser da vida dela, me faz notório. E não deveria ser assim... A hora que minha música parar de ser diferente por valorizar a mulher, estaremos vivendo em uma sociedade bem melhor. 

Crê que os tempos já estejam mudando?
Acho que estamos em uma transição, temos que aprender com os erros e ouvir o que as pessoas têm para falar. E não só as mulheres, mas trans, gays, negros e todas as pessoas que têm algo a dizer, a reclamar de algo que as afeta. Porque se eu, como negro, quero que as pessoas me escutem, devo ouvir todos, inclusive as minorias, que na verdade são maioria. Devemos nos unir. 

Segura Seu BO é uma das suas favoritas desse CD, certo? Por quê?
Ela é muito forte para mim, chorei escrevendo, soluçava. Ela é especial, representa uma libertação, porque, ao longo dos anos, passei por uma fase mais difícil. Em 2015, senti que estava entrando em depressão e saí dela sozinho. Não cheguei a tratar, mas durou uns meses. E foi bem ruim. Segura Seu BO fala daquela época. Chamei o Rashid (rapper) para falar de coisas que viveu. E acho que por mais que você faça tratamento, a depressão é muito você segurar seu BO. Você tem que acreditar e querer isso. Quando você não quer, pode acabar se viciando em drogas (em decorrência). E na hora que eu quis sair eu venci! 

18/08/2017 - 15:59

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